Cartografia Inclusiva: como elaborar mapas táteis e sonoros

Veja neste tutorial sobre cartografia inclusiva como produzir mapas táteis e sonoros quer irão favorecer a inclusão de pessoas com necessidades especiais

Por Arlete Meneguette e Matheus Meneguette

Este texto é voltado à Cartografia Inclusiva, que vem sendo praticada desde a década de 1990 na Unesp – Câmpus de Presidente Prudente. Inicialmente é apresentada uma contextualização para situar o leitor espaço-temporalmente na temática da pesquisa, sendo ilustrados alguns dos produtos gerados por uma equipe transdisciplinar.

Em seguida são sugeridas atividades que podem ser realizadas pelos educadores para suas próprias áreas de estudo, a fim de elaborar produtos cartográficos táteis e sonoros, em 2D e em 3D. Na Unesp a inclusão é o elo e o estímulo para a integração, a cooperação e a colaboração.

Contextualização

Em 1993 um desafio se transformou em oportunidade: uma estudante do Curso de Graduação em Geografia da Unesp – Câmpus de Presidente Prudente contraiu toxoplasmose e teve uma perda parcial da visão. Esse foi nosso estímulo para pesquisar estratégias de ensino-aprendizagem integradoras, holísticas e emancipatórias. Desde então temos desenvolvido um projeto de Cartografia Tátil, que visa favorecer a inclusão, a superação e a resiliência. Inicialmente construímos materiais de apoio didático-pedagógico e oferecemos oficinas para educadores, em parceria com a Diretoria de Ensino de Presidente Prudente. Realizamos atividades educativas com pessoas com deficiência visual na Escola Estadual Profa. Maria Luiza Formosinho Ribeiro, de Presidente Prudente, onde havia uma Sala de Recursos.

Outra parceria que estabelecemos foi com a Associação de Proteção aos Cegos de Presidente Prudente, cujos estudantes e educadores têm contribuído na avaliação dos produtos que geramos de forma participativa e colaborativa.

Em nossa concepção, os cidadãos em geral (com ou sem deficiência) têm o direito a receber capacitação para tomar decisões acertadas e apropriadas, inclusive fazendo uso da função social da linguagem cartográfica em um ambiente que favoreça a aprendizagem significativa. Os cidadãos podem ser “prosumidores” (produtores+consumidores) de mapas, os quais incorporam o conhecimento local valorizando o espaço vivido, fortalecendo a sensação de pertencimento a um lugar.

Com base no princípio de inclusão e integração outro projeto vem sendo realizado, voltado ao mapeamento das barreiras arquitetônicas e informacionais Unesp – Câmpus de Presidente Prudente, visando propor intervenções que favoreçam a acessibilidade e a mobilidade. As dinâmicas de sensibilização envolvem o uso de vendas nos olhos, manuseio de bengala e utilização de cadeiras de rodas, para que as pessoas consideradas “normais” vivenciem como se sentem as pessoas com deficiências em um espaço excludente, repleto de obstáculos e preconceitos.

Com a intenção de favorecer a permuta de experiências multissensoriais realizamos várias edições da Corrida de Orientação Inclusiva, com o apoio da Federação de Orientação de São Paulo. Delas participaram tanto pessoas com deficiência física quanto deficiência visual, que se integraram aos grupos de estudantes da Unesp – Câmpus de Presidente Prudente.

Nossa equipe formada por estudantes do Curso de Graduação em Geografia (sendo que um deles é cadeirante) percorreu as calçadas e os caminhos do entorno da Área Central da Unesp – Câmpus de Presidente Prudente, visando identificar pontos emergenciais de intervenção, bem como verificar se as medidas já tomadas pela Comissão de Acessibilidade atendiam as necessidades das pessoas com deficiência.

Para agilizar a coleta dos dados empregamos um receptor GPS (Global Positioning System – Sistema de Posicionamento Global) para georreferenciar e uma câmara digital para fotografar os obstáculos à acessibilidade e mobilidade em nosso Câmpus. Com base no levantamento realizado com GPS foram elaborados mapas colaborativos utilizando o Google Maps, além de geovisualizações 3D no Google Earth. Relatórios ilustrados foram encaminhados à Comissão de Acessibilidade e aos gestores da Unidade Universitária, que assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público, comprometendo-se a tornar acessível o Câmpus.

Para complementar o levantamento feito com GPS e o mapeamento feito no Google Maps, utilizamos o Google SketchUp para representar as feições em 3D, o que nos possibilitou gerar uma visita virtual.

Sugestões de atividades

Como sabemos, a fim de produzir um produto cartográfico derivado (temático ou especial) é necessário ter acesso a uma base cartográfica, seja ela em meio analógico (impressa) ou digital (vetorial e/ou matricial). No caso da Unesp – Câmpus de Presidente Prudente essa exigência não é problema, pois há uma grande variedade de bases cartográficas, em diversas escalas e níveis de detalhamento, tanto planimétricas, quanto planialtimétricas. Temos inclusive bancos de dados georreferenciados em ambiente SIG (Sistema de Informação Geográfica), como o demonstra a figura 1.

Figura 1: Banco de Dados Georreferenciados em ambiente SIG
(a) Importação de arquivo DWG; (b) geração de mapa temático

 

A partir da base cartográfica podem ser elaborados outros produtos de informação que visam atender as necessidades dos usuários como, por exemplo, os calouros dos Cursos de Graduação ou de Pós-graduação, os novos docentes e funcionários, os participantes de eventos etc. Um exemplo são as placas de sinalização externa nas quais consta o mapa do Câmpus em grande formato.

Em nosso Câmpus há equipamentos disponíveis para a realização do levantamento topográfico e geodésico, além de aplicativos para processar imagens aéreas e de satélite, o que também nos permite produzir mapas temáticos e especiais.

A privilegiada situação da Unesp – Câmpus de Presidente Prudente não é a mesma de outras Unidades Universitárias da Unesp ou de outras escolas, sejam elas públicas ou particulares. Desta forma, ao invés de utilizarmos a base cartográfica existente, elaborada através de levantamentos topográficos e geodésicos, decidimos desenvolver estratégias que pudessem ser reproduzidas em outras áreas de estudo que não tenham uma base cartográfica. Portanto, sugerimos o uso dos produtos Google Geo, que disponibilizam gratuitamente tanto mapas de ruas, quanto mapa do terreno, assim como mosaicos de imagens de satélite e panoramas imersivos 360° ao nível da rua. Tais produtos podem ser utilizados para fins didáticos lembrando que é necessário sempre manter a logomarca Google para fins de crédito.

Sendo assim, vamos supor a área para a qual desejamos elaborar mapas táteis não disponha de uma base cartográfica. Uma alternativa é imprimir ou plotar um recorte da imagem de satélite disponibilizada no Google Maps e sobre ela colocar um pedaço de papel vegetal ou de acetato transparente. Se na escola houver algum software gráfico o mesmo procedimento pode ser realizado digitalmente, preferencialmente usando o Google Earth na versão gratuita. Todos os detalhes necessários podem ser traçados seja em tons de cinza (figuras 2a e 2b) ou usando diferentes cores (figura 2c).

Figura 2 – Unesp – Câmpus de Presidente Prudente
(a) Imagem de Satélite com elementos traçados em tons de cinza; (b) Mapa base elaborado a partir da interpretação da imagem de satélite; (c) Mapa Temático gerado a partir do mapa base

Utilizando o mapa base e o mapa temático, podemos confeccionar mapas táteis usando EVA de diferentes texturas e cores, além de detalhes em treliça, cordonê, pelúcia, espuma injetada, lixa, cortiça etc (figura 3a). Uma folha de acetato pode ser colocada sobre uma das maquetes para demonstrar que é possível extrair camadas 3D de informações (figura 3b).

Figura 3 – Modelos 3D como base para extração de dados 2D
(a) Maquete tátil; (b) Folha de acetato sobreposta à maquete tátil

 

Produtos cartográficos táteis e sonoros podem ser elaborados empregando o Touch Memo Voice Labeler, um dispositivo que permite gravar e reproduzir sons associados com etiquetas especiais que são aplicadas às maquetes e aos mapas táteis. Na Unesp – Câmpus de Presidente Prudente elaboramos nossos primeiros mapas táteis e sonoros em 2012 (figura 4).

Figura 4 – Material de apoio didático-pedagógico tátil e sonoro

 

Mapas táteis podem ser elaborados usando uma impressora 3D, o que agiliza a reprodução que não depende totalmente do trabalho artesanal. Na Unesp – Câmpus de Presidente Prudente elaboramos nosso primeiro protótipo em 2013, graças a uma parceria com a Unesp – Câmpus Experimental de Sorocaba (Grupo PET da Engenharia de Controle e Automação). Após a modelagem virtual 3D (figura 5a) foi feita a impressão 3D utilizando plástico ABS de cor bege (figura 5b).

Figura 5 – Mapa tátil produzido em impressora 3D
(a) Modelo Virtual 3D; (b) Mapa tátil produzido em impressora 3D

Em seguida, tomando por base as cores definidas por um mapa temático elaborado por nossa equipe (figura 6a), foi feita a colorização manual utilizando primer para preparar a base, seguido pela aplicação de tinta acrílica e verniz (figura 6b), atividade realizada em parceria com Rita Cavalli Atelier, de Presidente Prudente.
Na figura 6a:

  • o verde representa a Área Central da Unesp onde há gramíneas
  • o preto representa as vias externas no entorno da Área Central
  • o cinza escuro representa os estacionamentos (externos e internos)
  • o cinza claro representa a quadra poliesportiva
  • o laranja representa os prédios de um andar
  • o vermelho representa os prédios com dois andares, que requerem o uso de elevador ou de plataforma elevatória para as pessoas com deficiência visual

Na figura 6b, além da adoção de cores semelhantes às mostradas na figura 6a, os diferentes elementos receberam uma texturização diferenciada, para ser perceptível pelas pessoas com deficiência visual. Essa texturização foi efetuada na etapa de modelagem virtual 3D para que a impressora 3D pudesse representar os elementos apropriadamente.

Figura 6 – Mapa tátil produzido em impressora 3D e colorizado manualmente
(a) Mapa temático; (b) Mapa tátil após aplicação de primer, tinta acrílica e verniz

 

Na impossibilidade de utilizar o software de modelagem virtual 3D e a impressora 3D uma alternativa interessante e de baixo custo que experimentamos e recomendamos é uma máquina de bordar automatizada. A figura 7 ilustra o protótipo que elaboramos em parceria com a empresa Totem Comunicação Visual e Bordados.

Figura 7 – Mapa tátil sendo produzido em máquina de bordar

Uma experiência que conduzimos em parceria com a empresa UpSigns, que se mostra mais complexa e onerosa, envolve o uso de plotter de corte e vinil autoadesivo, o que requer uma montagem artística minuciosa mas de alta qualidade e durabilidade por ser impermeável (figura 8). Essa preocupação surge em função do manuseio constante dos materiais táteis o que causa um desgaste ao longo do tempo.

Figura 8 – Mapa tátil produzido em plotter de corte

 

Considerações finais

Desde a década de 1990 temos desenvolvido na Unesp – Câmpus de Presidente Prudente diversas estratégias de ensino-aprendizagem e produzido material de apoio didático-pedagógico (tátil e sonoro, em 2D e 3D) adotando o design universal, de modo a que todas as pessoas, com ou sem deficiência, se apropriem e se beneficiem com os recursos da Cartografia Inclusiva.

Bases cartográficas e mapas temáticos podem servir como referência para a elaboração de mapas táteis empregando materiais com diferentes texturas e cores, pois poderão ser utilizados tanto por pessoas com deficiência visual total (cegas) quanto deficiência visual parcial (baixa visão).

Para os locais que não disponham de uma base cartográfica própria, sugerimos empregar os produtos Google Geo, lembrando que é necessário sempre manter a logomarca Google para fins de crédito. Um aspecto interessante dos produtos Google Geo é que eles favorecem o empoderamento dos neocartógrafos, que podem reportar erros, fornecer feedback e mesmo contribuir com seu conhecimento local através do mapeamento colaborativo e participativo.

E aí? Gostou das dicas?

Arlete Meneguette, Engenheira Cartógrafa, PhD em Fotogrametria, Livre Docente em Cartografia

 

 

Matheus Meneguette, graduado em Tecnologia em Jogos Digitais pela PUC-SP

 

 

Um comentário sobre “Cartografia Inclusiva: como elaborar mapas táteis e sonoros

  1. Oi Dra Arlete. Que trabalho incrível. Já lhe acompanho a algum tempo, mas em especial vi essa reportagem postada pelo GeoEduc e mais que nunca preciso lhe seguir! Hehehe
    Estou com um projeto Cartografia Iclusiva aqui no Ifpa , onde trabalho. Na nossa região é um trabalho novo, a nossa instituição carece desse estudo, visto que atendemos alunos com deficiência visual e auditiva no nosso campus. Enfim! Seria possível uma troca de material, indicações de leituras , artigos , qualquer documento que possa me ajudar nesse projeto?
    Também gostaria de mostrar minhas ideias para os produtos que pretendemos gerar ! Vi na reportagem que na Unesp há curso e treinamentos para quem se interessa pelo assunto? Pode explicar melhor ?

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