Qual o papel da Geoinformação na Gestão de Projetos?

Este artigo é a primeira parte de uma trilogia na qual vamos juntos refletir sobre o papel da Geoinformação durante o gerenciamento de um projeto. Nesta primeira parte você verá uma introdução à gestão tradicional e à gestão ágil de projetos, na segunda veremos as diferenças entre elas, as vantagens de cada uma e sua integração e abordaremos o framework Scrum, enquanto na terceira e última será a vez de entrarmos mais a fundo nas Geociências e na gestão de projetos geoespaciais

Por Eduardo Freitas Oliveira*

Você já deve ter participado em um ou mais projetos, seja como parte de uma equipe, como gestor ou até como contratante. Mas você já se deu conta da quantidade de problemas que acontecem num projeto ou no andamento de um programa? Prazos que são perdidos, orçamentos que são estourados, produtos entregues após meses de desenvolvimento que na verdade não resolvem o problema do contratante e por aí vai…

E no setor de Geotecnologia e Drones não é diferente. Pelo contrário, existem inúmeros casos de equipamentos e softwares comprados que não são usados ou são subutilizados, mapeamentos sobrepostos, falta de continuidade em programas de cartografia, entre tantos outros.

Mas por que isso ainda acontece, mesmo com todo o avanço tecnológico atual?

Primeiro, é importante lembrar que projetos envolvendo Geociências têm suas particularidades e devem ser tratados de forma especial. Por outro lado, existem estudos afirmando que mais de 90% dos dados disponíveis possuem uma componente espacial. Desta forma, praticamente todos os projetos deveriam levar em conta a geolocalização.

Em segundo lugar, certamente você já deve ter ouvido falar de modelos para gestão de projetos. Existem metodologias tradicionais, outras mais modernas, mas antes de gerar um conflito entre estes métodos, o ideal é conhecer as abordagens, aproveitar o melhor de cada uma e fazer uma integração entre elas.

E o terceiro e último fator é o humano, já que a aplicação de uma metodologia em detrimento de outra depende também de outras questões, como por exemplo a maturidade da organização, a capacitação do time, do gestor e até mesmo do “dono” do projeto.

Diante dessa realidade, aumenta a cada dia a importância da eficácia em projetos e dos conhecimentos que envolvem o gerenciamento de projetos. Mas antes de avançarmos, vamos conceituar projeto e gerenciamento.

Existem várias definições para projeto. Uma delas diz que é todo trabalho que possui uma ou mais atividades bem definidas, que precisam ser finalizadas em um período determinado por uma data inicial e uma data final.

Para que os projetos sejam executados e entregues com qualidade é necessário que haja planejamento, alocação de profissionais, controle, além de experiência para antecipar e evitar possíveis problemas. Tudo isso, junto e aplicado a um projeto, chama-se gerenciamento de projetos.

Hoje, as principais abordagens de gerenciamento de projetos usadas em grande escala são a tradicional e a ágil. A tradicional é identificada por determinar uma sequência de passos a serem cumpridos, formando processos, enquanto a segunda é vista como um conjunto de pequenas tarefas e entregas preliminares.

A abordagem tradicional mais comum, hoje, é a contida no Guia PMBoK, que é o Project Management Body of Knowledge, em português guia de boas práticas para gerenciamento de projetos. Já entre as abordagens ágeis, a mais popular é o Scrum.

Voltando às questões geográficas, projetos de qualquer tipo e porte envolvem, naturalmente, fatores geoespaciais, seja no escopo, recursos, equipe, custos, entre outras questões. Desta forma, a Geografia pode afetar positivamente ou negativamente a gestão de um projeto.

Por outro lado, as demandas por colaboração entre as partes envolvidas e feedback constante ao longo do desenvolvimento de produtos requerem metodologias eficazes, que garantam a satisfação do cliente desde o início do processo.

Gestão Tradicional de Projetos

Segundo o PMI, que é o Project Management Institute, em português Instituto de Gerenciamento de Projetos, a arte de gerenciar um projeto passa pela identificação dos recursos e conhecimento das necessidades dos stakeholders, usando uma comunicação ativa, colaborativa e eficaz.

Lembrando que o termo stakeholder está relacionado a todas as pessoas e/ou organizações que podem ser afetadas por um projeto, de forma direta ou indireta, positiva ou negativamente. Também são conhecidos como partes interessadas e são essenciais para o planejamento e execução de um projeto. Os stakeholders de um projeto podem ser gestores e/ou funcionários de uma empresa, fornecedores, concorrentes, proprietários, acionistas, clientes, governo, mídia, sindicatos, comunidades, entre outros.

Porém, você já deve ter visto que projetos passam por mudanças de requisitos ou objetivos, o que pode gerar eventuais conflitos entre os stakeholders e que devem ser equilibrados pelo gerente do projeto para que ocorra uma entrega bem sucedida. Estes cenários de constantes mudanças – como por exemplo as que ocorrem no setor de Geotecnologia e Drones – fazem com que o gerenciamento de projetos seja algo progressivo e dinâmico, já que pode a qualquer momento sofrer adaptações.

A gestão de todas as variáveis que envolvem um projeto pode ser feita por meio de diversas abordagens e metodologias, e uma delas é o já citado PMBoK, também conhecido como gerenciamento tradicional. Esta abordagem leva em conta técnicas e ferramentas de planejamento e controle que normatizam a realização de projetos, sustentada por processos padronizados.

Por outro lado, alguns autores defendem que o uso efetivo destas técnicas pressupõe um cenário estável e previsível, porém nos dias de hoje tais condições não estão presentes no ambiente de negócios dinâmico em que vivemos.

Por exemplo, na área de Geotecnologia e Drones, geralmente está presente um ambiente imprevisível, no qual os requisitos estão sujeitos a frequentes alterações devido ao dinamismo dos negócios, onde novas forças competitivas emergem rapidamente, modificando as condições de mercado e as necessidades dos usuários.

Desta forma, o desafio é acomodar as mudanças de forma rápida e flexível, e talvez a solução esteja em uma abordagem ágil, que será apresentada em maiores detalhes ao longo desta sequência de artigos.

Voltando à abordagem tradicional, o guia PMBoK prega a organização dos processos que envolvem a gestão de projetos e traz as linhas mestras para que uma empresa implemente fluxos para a condução de seus projetos.

A forma de organização do PMBoK propõe a integração de 10 processos que controlam o ciclo de vida de um projeto, definindo que deve haver papéis e responsabilidades bem claros, limites de atuação de cada stakeholder e transparência nas comunicações.

Os 10 processos que são a base da gestão proposta pelo PMBoK são:

  • Integração, que prevê a articulação de elementos do gerenciamento de projetos, identificados e coordenados durante o ciclo de vida do projeto.
  • Escopo, ou seja, todo o trabalho que será necessário para que o projeto seja concluído com sucesso
  • Tempo ou datas de início e de fim entre as atividades necessárias à conclusão do projeto, sendo que muitas delas poderão ter interdependência
  • Custo ou previsão dos valores que envolverão a realização do projeto
  • Qualidade, que contempla os padrões e normas a serem seguidos
  • Recursos humanos, ou seja, a equipe do projeto, os perfis dos profissionais, a hierarquia entre eles e respectivas responsabilidades
  • Comunicações, que são as plataformas e procedimentos para geração, coleta, armazenamento, destinação e disseminação das informações
  • Riscos, pois todo projeto possui riscos inerentes que devem ser minimizados
  • Aquisições, necessárias para o bom andamento do projeto
  • Partes interessadas, que diz respeito a todas as pessoas envolvidas com o projeto

Gestão Ágil de Projetos

Muito mais do que uma metodologia, o “agile” é quase uma filosofia de trabalho. O chamado “Manifesto Ágil” é uma compilação da essência que se deseja de métodos ágeis, especialmente voltados para o desenvolvimento de softwares, mas adaptáveis e aplicáveis a projetos de qualquer natureza, inclusive no setor de Geotecnologia e Drones.

No final da década de 90, as metodologias tradicionais começaram a ser questionadas, uma vez que enfrentavam dificuldades de adaptação às necessidades de mudanças constantes dos processos de desenvolvimento de software, além da alta frequência com que estes projetos deixavam de cumprir os cronogramas e extrapolavam os orçamentos.

Como fruto destes questionamentos, surgiram os chamados métodos ágeis, que são abordagens de desenvolvimento mais adaptativas e flexíveis, indicadas para cenários onde existe constante mudança de requisitos e que os resultados devem ser entregues ao cliente em pequenos espaços de tempo.

A proposta deste tipo de metodologia consiste em dividir o desenvolvimento em diversas iterações, formando ciclos que duram poucas semanas, em que o cliente recebe ao final de cada ciclo uma aplicação que agregue valor ao seu negócio. Assim, no início de cada ciclo as mudanças de requisitos podem ser monitoradas, minimizando os riscos do projeto, uma vez que desenvolvedores passam a ter feedback frequente do cliente.

É uma filosofia que está alinhada ao conceito de Design Thinking, no qual o gerente do projeto deve atuar como um “designer” no sentido de imergir no entendimento de parâmetros e padrões essenciais para a criação de projetos de melhor qualidade.

Dentre os diferentes métodos ágeis, o que mais se destaca é o Scrum, um framework para desenvolvimento de produtos que apresenta um conjunto de valores, princípios e práticas dentro dos quais as pessoas podem tratar e resolver problemas complexos e adaptativos.

No próximo artigo veremos com mais detalhe o framework Scrum, além das diferenças, semelhanças, vantagens e desvantagens entre os métodos tradicional e ágil de gestão de projetos geoespaciais. Até lá!

Enquanto isso, cadastre-se para receber uma notificação por e-mail de quando sair o próximo artigo e também de quando abrirem as inscrições para o Workshop gratuito sobre Gestão de Projetos Geo:


 

Eduardo Freitas Oliveira*, Idealizador do geoXchange, Co-Fundador do MDI, Consultor-Especialista no GEOeduc, Diretor de Operações do MundoGEO, Projetista na Engest Engenharia. Engenheiro Cartógrafo (UFPR), Técnico em Edificações (UTFPR), Especialização em Gestão Estratégica em EAD (Senac-SP), com mais de 20 anos de experiência em Obras Civis e Geotecnologia, atuando em empresas como Engebanc, Vertrag, Absoluta, Empresa Júnior de Cartografia da UFPR, entre outras. Coordenador do Instituto GEOeduc de 2014 a 2017. Diretor Financeiro da Associação Brasileira de Engenheiros Cartógrafos – Regional Paraná (ABEC-PR) 2013/2015, Membro da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) e do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), Tradutor de 2007 a 2013 do Informativo para América Latina e Caribe da Associação para a Infraestrutura Global de Dados Espaciais (GSDI), Tradutor desde 2012 do Informativo do Fórum Ibero-Americano do Consórcio Geoespacial Aberto (OGC), Tradutor desde 2014 do Informativo GeoSUR, Membro da Equipe de Tradução do software livre QGIS – 2015/2016, Membro da Comissão Avaliadora das Jornadas Internacionais do software livre gvSIG – 2013-2014. Atuou como Gerente de Social Media, Editor das Revistas/Portais MundoGEO & DroneShow e Coordenador da Programação dos Eventos Presenciais (Seminários, Hackatons, MundoGEO#Connect & DroneShow) e Online (Webinars, Workshops) da MundoGEO. Liderou a participação da MundoGEO em Projetos de Cooperação Internacional envolvendo instituições latino-americanas e europeias. Autor do blog GeoDrops. Artigos publicados nas revistas Scientific American Brasil, GIS Development, entre outras. Participação no documentário Todo Mapa tem um Discurso. Criador do primeiro grupo de Mastermind de Geotecnologia (Geomind). Criador da página I See Maps All The Time. Palestrante em Conferências Nacionais e Internacionais sobre Tendências em Geotecnologia & Drones, (Geo)Marketing Digital, GeoEmpreendedorismo, Qualificação/Atualização Profissional e temas afins.

Um comentário sobre “Qual o papel da Geoinformação na Gestão de Projetos?

  1. Para efeito de analise eespacial no acto de processamento de dados socio economicos, topograficos e biofisicos para elaboracao de planos de organizacao espacial e orrdenamento territorial das distintas e diversas actividades e os respectivos projectos de desenvolvimento politico cultural, social e economico

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *